Fernando Galrito: “A Monstra é um festival para gente jovem, de coração aberto”

  

 

Galrito BD

A 18.ª edição da Monstra realiza-se entre os dias 8 e 18 de março e trará a Lisboa mais de 600 filmes. O diretor artístico do festival, Fernando Galrito, explicou à Forum a ligação da Monstra com os jovens, realçando ainda o papel do cinema de animação enquanto arte com um perfil diferenciador: “[o cinema de animação] faz com que eu, enquanto espectador, associe o que vejo a algo que está dentro de mim.

A Monstra é um festival de cinema que tem afinidades com o público jovem?
A Monstra tem tudo a ver com os jovens e com os estudantes. À partida, são pessoas abertas à novidade e que gostam de experimentar. E o cinema – muito especialmente o cinema de animação – tem essas características. No cinema de animação, posso fazer um filme com tudo, porque tudo é possível de animar. E esse lado de experimentar, de olhar o mundo de uma forma diferente, enquadra-se perfeitamente no público jovem.
Depois, num mundo cada vez mais globalizado, encontramos pessoas que vêm de culturas diferentes. O cinema de animação também é isso. O Festival Monstra tem 93 países presentes no festival, com toda a cultura, dinâmica e estética ligada a cada um deles. Por tudo isto, diria que a Monstra é um festival para gente jovem, de coração aberto.

Numa entrevista recente falou em “ver o cinema de animação de forma diferente”. Qual é essa diferença?
Uma das grandes diferenças é que, no cinema de animação, os grandes atores e atrizes são as marionetas, os objetos, as linhas e as cores que se movem sobre o ecrã. Esse lado diferenciador – de não existir uma presença física – faz com que eu, enquanto espectador, associe o que vejo a algo que está dentro de mim. O cinema de animação é como a poesia: está cheio de metáforas.


Vídeo resumo da edição de 2016 (Fonte: monstrafestival.com)

Pensa que essa ligação ao mundo imaginado é uma das razões pela qual o cinema de animação é conotado com o público infantil? E sente que essa perceção tem mudado?
Penso que os festivais – a começar pela Monstra (risos) – tem ajudado a desconstruir a imagem de o cinema de animação é só para crianças. É verdade que a maioria dos filmes de animação que vemos no cinema ou nas televisões são dirigidos a um público familiar ou essencialmente infantil. Na Monstra, tentamos mostrar os dois lados: existe uma programação mais infantil – a que chamamos Monstrinha – mas isso é apenas 25% do total. Temos interesse em que se mostre que o cinema de animação é uma arte que, como todas as artes, pode ser vista por todos e que tem um pendor estético, social e transformador muito forte, também junto do público mais adulto.

Nesse sentido, o cinema de animação – e a Monstra, em particular – são também uma forma de partilhar histórias e ambientes que, habitualmente, nos estão mais distantes?
Um dos objetivos principais do festival é mostrar outros olhares, tanto a nível narrativo como no que toca às técnicas utilizadas. O mercado está mais preenchido pelas tecnologias digitais – e nós não as recusamos. Mas queremos mostrar uma grande diversidade, não só do ponto de vista das origens culturais mas também das suas técnicas (recortes, marionetas, objetos, digitais, etc…). Não temos nada contra a Pixar, a Disney ou a Dreamworks. Queremos é mostrar que existem muito mais coisas no mundo inteiro.

Sente que esse conhecimento do que é distante é, cada vez mais, essencial?
O mundo seria muito mais próximo e menos guerrilheiro se nos conhecêssemos uns aos outros. Qualquer árabe, carinho e amizade extrema. Na nossa programação, temos filmes do Irão, do Iraque, da China, das duas Coreias... Para mostrar às pessoas que qualquer uma destas pessoas que criou aquele filme tem uma sensibilidade tão grande como qualquer um de nós. Esse é um dos lados do festival que nos interessa muito salvaguardar. Quanto mais conhecemos os outros, menos medo temos deles, mais queremos saber sobre eles.

MONSTRA FORUM ESTUDANTES 1

Quanto à programação para 2018 da Monstra, o que é que pode revelar?
Este ano, temos um festival que vai em muitas direções. Temos filmes de grande público, por exemplo, como a ante-estreia de um filme que poderá ser um dos grandes sucessos de bilheteira de 2018 – o “Early Man”, de Nick Park [criador da série Wallace and Gromit e co-autor da Ovelha Choné]. Também teremos uma secção de históricos, centrados no tema “Fuga para a Liberdade” e outras categorias como “Terror Anime” ou a “Monstra XXX”. Isto para além das secções de competição de estudantes e de curtas e longas metragens. Sei que há muitos jovens que gostam também de animação do Japão e posso dizer que teremos uma grande retrospetiva japonesa, com 10 filmes programados.

Qual é o número total de filmes que será exibido?
Vamos apresentar mais de 600 filmes, no total, o que mostra que este é um festival com uma programação vasta. Para além destes há ainda todas as obras que são feitas em realidade aumentada ou virtual e que não são contabilizadas para este número total. Mas que fazem parte destes outros olhares que o cinema de animação tem.